BERND BIERBAUM

Bernd Bierbaum

Bernd Bierbaum writes books, paints, enjoys photography, and travels professionally across the world. He lives in Cape Town, South Africa.

Latest: Searching for the aardvark. Based on my idea and story, a 45min documentary was recently broadcast on ARTE TV and ZDF in France and Germany.

Pataxó- O Olhar Proximo (co-author, in Portuguese / em português)

A Antropologia do Bom-Senso

O contato entre povos indígenas e não-índios no Extremo-Sul do Estado da Bahia continua. Descobertos pelos navegantes portugueses em 1500, os Índios Pataxó são, hoje, o principal contingente da antiga população indígena estabelecida na área que foi classificada, pela UNESCO, como patrimônio da Humanidade, a reserva da Mata Atlântica da Costa do Descobrimento. Sujeitos a invasões das suas terras até o presente, os Pataxó compreendem uma população formada por mais de 10.000 habitantes.Testemunho de uma colaboração entre Pataxó e antro pólogos, este livro contém pequenos textos e mais de sessenta fotografias produzidas durante as pesquisas de campo de alguns dos antropólogos que nas últimas décadas com eles conviveram. Distante do interesse turístico ou da curiosidade exótica, os textos e fotos mostram uma visão diferente e mais próxima do mundo indígena.Todos os eventuais lucros resultantes da venda deste livro serão revertidos para a comunidade Pataxó.

A Antropologia do Bom-Senso

"Antropologia não é pro?ssão, é vocação. Vocês não podem estudar an- tropologia, nem se graduar nela. Na verdade, para serem antropólogos, vocês têm que deixar a antropologia para trás". Assim começou a minha iniciação, na primeira aula sobre o enigma antropológico, 25 anos atrás. Não entendi as palavras do professor, mas ?quei impressionado . Parece que já sofria de uma fraqueza por paradoxos como também de muita imaginação. Sem ter a mínima idéia aonde a antropologia poderia me levar, entrei num mundo que nunca deixou de me surpreender. Quando cheguei às áreas indígenas do sul da Bahia, ao ?m dos anos 80, pouco se percebia dos índios Pataxó por fora. Raramente adornavam seus corpos com pluma ou tatuagem e costumavam dançar com saias somente durante festas importantes ou eventos especiais. Havia cacique e pajé, talvez até "trickster", mas o poder era da família. Viviam ao lado do sobrenatural com facilidade. Lembro-me de uma noite no decorrer da qual uma menina nasceu, em Imbiriba. No escuro, alguma coisa me tocou várias vezes a pele. Não sabia o que era, e suspeitei de moscas ou insetos noturnos. O pajé percebeu meu incômodo e explicou (sem eu saber se era piada): "relaxa, são os bisavós falecidos da ?lha que nasceu. Só querem saber de que carne você é …"

Não foi a única vez que duvidei das teorias acadêmicas. Uma após outra implodiam. Esperei estudar uma cultura, mas encontrei con- dições humanas muito variadas naquela maré de contato entre o mundo indígena e o nacional. Que força e criatividade de sobrevivência! E que seriedade e humor! Alguns índios sabiam o que estava acontecendo. Manil Pacheco, da Aldeia de Mata Medonha, um dia me falou: "Olha, O Branco faz tudo como o Índio. Índio tem que preservar os segredos do Índio. Senão o Branco aprende tudo. Hoje, todo Branco já anda nu na praia, ?ca com as pernas no chão e bebe kaiboka. Mas o Índio também já faz como o Branco fez antes, tem roupa do Branco e na cidade só quer beber cerveja ou guaraná bem gelada. E olha você": (parou e apontou para mim). "Eu tenho relógio - você não. Eu tenho calça - você não, eu tenho camisa comprida - você não." Foi uma época em que o espaço entre a sociedade nacional e as terras indígenas diminuiu. As pousadas avançavam, os fazendeiros se expandiam, e a ?oresta se incendiou. À noite parecia que o Monte Pascoal se transformava em um vulcão, e a mata brilhava como uma corrente de lavra, queimando até a costa. A vida nas aldeias tinha mo- mentos de alegria, mas não consigo esquecer as imagens dos velhos de pulmões fracos, tossindo, enquanto os ?lhos, subalimentados e com barrigas com verme, choravam. Uns meses mais tarde, eu também caí doente.

Poucos dos não-índios na área eram sensíveis às necessidades indí- genas. Lembro do dia em que um padre católico veio à Aldeia Boca da Mata, para batizar. Para a cerimônia começar, era necessário juntar cinco nomes para cada batismo: o da mãe, o do pai, um do padrinho e mais dois nomes por cada criança - o nome indígena e o nome cristão. Logo irritado, o padre começou a recusar a falta de diversidade dos nomes escolhidos: "Não é possível chamar todo índio de Manuel, e toda índia de Isabel", gritou. A confusão aumentou. Furioso, o padre insistiu sobre o pré-pagamento da festa, ameaçando que não batizaria mais ninguém, se os índios não aprendessem seu sistema. Talvez os índios não conhecessem o funcionamento detalhado de cada sistema da cultura nacional, mas certamente sabiam sobreviver. Com pouco apoio viviam da agricultura, continuavam com a pesca nos rios e lagoas e até com a caça, e produziam e vendiam artesanato aos turistas. Começavam a se mostrar e agir de uma maneira que o resto do mundo esperava do índio, sem perder o seu próprio bom- senso. Organizavam-se politicamente para melhor lutar por seus di- reitos. Com muitas di?culdades ganhavam uma certa segurança e um primeiro reconhecimento, nos últimos anos, em relação à demarcação das terras e às aldeias. Quando voltei a algumas áreas indígenas, em 2008, o mundo Pataxó estava bem vivo, mesmo ameaçado por uma situação de contato mais rígida. Índios que antes viviam precaria- mente nas fazendas voltavam para as suas aldeias ou migravam para mais longe. Vastas plantações de eucalipto avançavam pelas suas terras tradicionais. A demarcação geral do litoral como espaço de interesse turístico internacional, nacional e regional, a criação das reservas na- turais e a expansão das povoações não-indígenas criaram um sentido de fronteira ainda mais de?nido. No ?m dos anos 80 a vida dos índios era diferente da que é hoje, e a do antropólogo também. Foi uma existência análoga, sem laptop, sem telefone celular e, no meu caso, com aparelho fotográ?co bem simples. Já o acesso físico a este mundo era difícil, às vezes requeria caminhar por dias e noites. Às vezes me sentia como um cosmonauta extraterrestre: à frente o grande mistério, sem contato ao "ground control".

Nunca consegui agradecer su?cientemente aos Pataxó pela hospitali- dade recebida. Pelos pratos preparados de mandioca e feijão ou pelo chá de citronela. Pelas conversas ao lado do fogo até bem tarde da noite, em- baixo das estrelas cadentes, que eles chamavam de "estrelas correntes". Pelas rodas dos jovens que dançavam e cantavam nas aldeias. Pela experiência de conviver com eles por um tempo, ao lado dos rios, das lagoas, da mata e das suas roças. Recebo presentes deles até hoje: em janeiro de 2008 peguei um táxi-motocicleta, em Itamarajú, para visitar a aldeia de Monte Pascoal. Passei pela Aldeia do Trevo do Parque. Mesmo com minha cara escondida pelo capacete e completamente vestido, uma pessoa corria atrás da motocicleta. Era João Braz, o cacique da aldeia de Águas Belas, chamando o meu nome. Ele tinha me reconhecido! Não sei se eu próprio conseguiria me reconhecer tão facilmente, mais de duas décadas depois.
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